segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ria, palhaço!

"Ouvi uma piada uma vez. Homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador onde o que se anuncia é vago e incerto. Médico diz ‘Tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade. Assista ao espetáculo. Isso deve animá-lo'. Homem se desfaz em lágrimas. E diz 'Mas, doutor, eu sou o Pagliacci'."

Alan Moore (Watchmen)


Esticada a lona. Debaixo do céu, um outro céu se desfralda. E é sob este céu que os súditos acotovelam-se para reverenciar a sua majestade: o palhaço. Com Cocuruto não é diferente. No picadeiro ele é o monarca. E ao mesmo tempo, o bobo. Acompanhado de seu fiel escudeiro, o anão Davi, ele faz estripulias que fazem o público ir à loucura. E cada dia era mais um dia para Cocuruto, ao contrário de seu público. E foi num dia como outro dia, em uma estripulia como tantas outras, que o inédito público testemunhou algo tão inédito quanto eles. Cocuruto desmaiou no picadeiro. Davi já estava acostumado. Fazia parte do número. Não daquela vez. E quando Davi deu-se conta que seu esforço colossal, que normalmente fazia o parceiro saltitar, de nada adiantara, correu desbaratinadamente para atrás do picadeiro. Quanto mais o anão se desesperava, mais o público gargalhava.

No dia seguinte, o Sr. Asclépio chamou Cocuruto, que, ainda grogue do tombo e do susto da noite passada, recebeu do outro dinheiro para que fosse ao médico. Cocuruto até resmungaria, pois de sua vida simples orgulhava-se de nunca ter de visitar um médico. De fato não gostava deles. Porém ordens são ordens.

O médico não lhe deu receita. Deu-lhe apenas um bilhete e disse que tudo estava bem. Como Cocuruto não sabia ler e o médico era um grande amigo de seu patrão, ele acalmara-se. Sossegado, Cocuruto entregou o bilhete ao Sr. Asclépio que o leu, olhou para ambos os lados, e rasgou-o. Depois, ordenou que Cocuruto voltasse ao trabalho.

Apesar das dores de cabeça, Cocuruto voltou ao trono. Seus dias de rei continuaram. Até que um dia como outro qualquer, em uma estripulia como tantas outras, Cocuruto desmaiou. O público gargalhou como nunca.

No dia seguinte, pelo menos, o funeral foi digno.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pirandello e Ele

Eu queria me matar, ele disse assim como quem diz que quer sorvete de baunilha. Ela olhou um tanto assustada, mas com uma ponta de desconfiança - os olhos azuis no canto dos olhos. Tu não teria coragem. Não havia desafio na fala dela, quem sabe ceticismo. Eu não disse que vou fazer, eu disse que tencionava fazer, que seria bom se eu pudesse, que se, e quem sabe se, eu fizesse talvez fosse melhor. Melhor pra ti, que não ia ter que ter mais responsabilidades, dessa vez ela estava enfezada. Estranho como a palavra enfezada é bacana, já perceberam? Assim como bacana. Mas deixa pra lá, o que eu penso não importa, só interessa o que ele e ela pensam, por enquanto. Ah, esqueci de dizer, nesse momento em que eu estava divagando havia um silêncio sepulcral repartindo os dois, daqueles bem constrangedor. Por mim tu faz o que tu quiser, ela estava sendo sincera. Não posso, Ele não deixaria. Reparem que esse Ele não é ele, é um outro ele que não tinha aparecido até agora. Ele quem? Para sorte do leitor, ou deus ex machina, mesmo, ela fez a pergunta que faltava. Ele, porra, o autor, aquele escroto. Escroto é palavrão? Não sei, mas é foneticamente interessante, não acham? Verdade, baita escroto, não sei pra quê toda essa pantomima. Pantomima, boa. É um safado, sacana, infame e pederasta, ele vociferou. É inútil, ela resignou-se, Ele não vai te matar, nem a mim. Seremos sempre personagens inúteis de uma história sem sentido, suspiraram os dois, ao mesmo tempo, com vozes que se confundiam. E ficaram em silêncio como dois títeres, enquanto Ele procurava outros personagens...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

antes tarde do que ontem à tarde

Sávio sempre foi um cara legal. Era do tipo que todos queriam como amigo. Sávio tinha tantos amigos que mal podia se dar conta de quantos tinha. Mas dentre todos, ele só se importava com Carmela. Sávio conheceu Carmela há tanto tempo que nem ele podia precisar. Ela era diferente, gostava de coisas estranhas e tinha um sorriso capaz de parar o mundo. O mais estranho, porém, era aquela indiferença estranha que ela quase sempre despendia.
Não é necessário dizer que Sávio, havia muito, tinha uma queda por Carmela. Uma queda livre do alto do mais alto dos edifícios, diga-se de passagem. O problema, para Sávio, era que ele nunca sabia se Carmela também estaria disposta a jogar-se com ele do alto do tal edifício. Era um jogo silencioso. Sávio fazia às vezes do grande amigo que sempre fora e Carmela esquivava-se de qualquer decisão. Sim, Carmela era uma indecisa nata.
Quando Carmela interessava-se por um tipo qualquer, Sávio passava dias amuado, mas de forma sutil, tanto que Carmela sequer percebia. Carmela tentava dividir confidências, mas Sávio dizia que era preciso não saber de tudo, pois se soubessem tudo um do outro, o segredo estaria revelado. É claro que esse segredo era um ambiguidade óbvia, mas para Carmela era só uma metáfora metafísica.
Sávio também teve seus casos, nenhum duradouro, na verdade. Esperava pelo dia em que tomaria coragem e embarcaria para felicidade. Ou perderia uma amizade que lhe era muito cara, já que não suportaria um "não" e teria que, inevitavelmente, afastar-se de Carmela. Às vezes, os dois saiam juntos e bebiam até não poderem mais parar de rir. E quando isso acontecia, ficavam um grande tempo parados, olhando um pro outro, tentando decifrar-se mutuamente sem serem devorados.
Mas Sávio nem na embriaguez tomara coragem. Havia o risco já mencionado e Sávio não era do tipo que apostava todas as fichas em uma rodada de poker. Preferia a cumplicidade do abraço amigo do que arriscar a possibilidade temerária do beijo amante. Mas isso até ontem à tarde.
Carmela ia viajar. Intercâmbio. Quatro meses fora. Sávio fora encorajado pela sua legião de amigos. Era o dia. Se recebesse o não, teria tempo. Se fosse o sim, um único beijo, que poderia ser relembrado na volta. Não precisava apostar todas as fichas. A oportunidade chegara.
Na rodoviária, depois de ajudar Carmela com a bagagem, ficaram olhando-se fixamente, parados, absortos num mundo em que só havia os dois. Não era preciso dizer nenhuma palavra. Nos olhos azuis de Carmela a resposta estava formada. O celular de Sávio começou a tocar insistentemente. Atendeu, tinha tempo, ainda faltava alguns minutos. Desligaria na cara do chato que ousou interromper o mundo que se formava entre ele e Carmela. Era seu pai, chorando. O pai de Sávio nunca chora. Era a mãe de Sávio. Sim, ela se fora.
Sávio ficou parado, mudo. De seus olhos brotaram lágrimas que Carmela, ingenuamente, achou que fossem pra ela. O clima estava pesado. Carmela beijou-lhe o rosto e disse, ao ouvido, algo que Sávio não lembra. Ela se foi. Chorando, também. Sávio ficou ali perdido, sem saber com agir. Da janela do ônibus, Carmela lhe enviou um aceno e um beijo. Sávio debulhou-se em lágrimas. Havia perdido duas mulheres em uma só tarde.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

criando asas

O blog está quase completando um ano (apesar de as postagens estarem raras). Estive refletindo e acho que está chegando a hora de dar um passo à frente, criar asas.

Em breve teremos (grandes) novidades.

Aguardem..

PS: Gostaria de agradecer a todos que acessaram, postaram comentários, deram estrelinhas e a todos que, de algum modo, fizeram com que este blog fosse motivo de orgulho pra mim. Muito Obrigado.

sábado, 31 de outubro de 2009

tudo o que o amanhã me trouxe

Tudo o que o amanhã me trouxe foi um sonho desperdiçado, daqueles em que se acorda no momento em que se tem certeza que seria grande coisa, porém, no entanto, não se tem lembrança exata do que se perdeu. Tudo o que o amanhã me trouxe foi o salivar desesperado a que se é submetido no momento em que se descobre que o sorvete de morango, não se sabe por que motivo, acabou. Tudo o que o amanhã me trouxe foi a surpresa desagradável que se tem quando se descobre que o livro que se tanto queria, cujos níqueis suados que o pagariam estão no seu bolso surrado, está esgotado. Tudo que o amanhã me trouxe foi a recusa impensável daquele amor que se desprezava e que, de um momento pra outro, passou a ser indispensável, mas que, sabe-se lá por que, não mais o quis. Tudo que o amanhã me trouxe foi a queda de energia no exato momento em que se terminava um texto e que ingenuamente não havia sido salvo anteriormente e, justamente por isso, ficou pra sempre perdido. Tudo o que o amanhã me trouxe são lembranças pérfidas que teimo em trazer à tona pra não esquecer dos erros que ainda vou cometer.

domingo, 4 de outubro de 2009

havia dias em que acordava com a camisa da seleção

Havia dias em que acordava com a camisa da seleção. Era a senha. A mãe e o filho precisavam correr para arrumar tudo, enquanto o avô tomava seu solitário café da manhã. Era preciso arrumar a sala, tirar os porta-retratos recentes, resgatar do sótão o velho vídeo-cassete (que ficava aparentemente desligado) e retirar da redoma meticulosamente escondida a famigerada fita VHS.

O avô não estava bem da cabeça. Passava dias, até meses sem dizer palavra. Quando resolvia abrir a boca era em uma ocasião temida pela sua filha e seu neto. Era quando acordava com a camisa da seleção.

A mãe e o filho já sabiam as consequências do não-cumprimento do sagrado ritual de adaptação. E não queriam que se repetissem. Era por isso que, toda vez que o avô acordava com a camisa da seleção, eles sacrificavam seu dia em prol do resto de sanidade que havia no avô. Esses dias eram, via de regra, dias tristes.

A cisma do avô estava em 1986. Para quem não sabe, este ano era ano de Copa do Mundo. E o avô não só era um ufanista incorrígivel como também um aficionado pelo futebol do meia Zico. Zico quase não jogara aquele campeonato pois estava machucado. Ainda assim, nas quartas-de-final, o meia entrou em campo e prontificou-se a bater um pênalti. O avô, extasiado, repetia mantricamente que o Zico nunca errava um pênalti. Pois o Zico errou. E daquele dia em diante, a cabeça do avô entrou em parafuso.

Nunca se recuperara. Os filhos buscaram ajuda, tentaram de tudo. No avô apenas o olhar parado, incrédulo, da hora do pênalti ficara petrificado.

E assim passaram os anos. Uns filhos desistiram, outros esqueceram do velho. Apenas sua filha mais dileta encarregou-se de seus cuidados. E, claro, dos dias em que acordava com a camisa da seleção.

Tentaram acordá-lo a todo custo. Era inútil. O avô estava imerso em mundo do qual não tinha controle.

A mãe, com a ajuda do filho, conseguiu uma fita com o jogo na íntegra. Era um ritual fácil, apesar de doloroso. O avô tomava o café solitário e ficava mudo até a tarde, quando, animadíssimo, cutucava o neto, instigando-o a ver o jogo. O neto ligava a TV - a fita já estava preparada - e acompanhava o avô na torcida até o momento do pênalti, do olhar petrificado e dos dias de mudez.

O filho - que também era o neto - às vezes revoltava-se contra seu destino atroz. Porém, as súplicas da mãe sempre o faziam resignar-se e aceitar o injusto carma. E assim era sua rotina até o dia em que o avô, mais uma vez, acordou com a camisa da seleção.

A correria já não era a mesma. Tinham treino e executavam as ações com a precisão de uma equipe de nado sincronizado. Almoçaram tristemente acompanhados da mudez do avô. O neto - que também era o filho - fingiu a mesma cara de surpresa quando o avô o avisou do jogo. A mãe e o filho/neto já nem assistiam direito à partida. Haviam decorado cada drible, cada passe errado, cada carrinho e chute desperdiçado. Apenas esperavam a hora do pênalti maldito.

E assim foi. Enfastiados e falsamente entusiasmados, a mãe e o filho viram Zico, pela enésima vez, preparar a cobrança. O meio campo deu sua tradicional meia corrida e com o pé direito fustigou fortemente a pelota que estufou os cordões da rede e descansou serena no fundo do gol.

O terror instalou-se. A mãe e o filho entreolharam-se, numa mudez gritante. O avô repetia em regozijo que o Zico nunca errava. A mãe e o filho voltaram-se para a TV, incrédulos. O replay não desmentia a alegria do avô. Os olhos da mãe e do filho ficaram parados, petrificados.

E desde então, toda vez que acordam com a camisa da seleção o avô precisa cumprir um dificultoso ritual em prol do que resta de sanidade na filha e no neto.

domingo, 27 de setembro de 2009

websarau

Participei, com muito gosto, do websarau promovido pela Andréia Pires (agora de "casa" nova). Taí o resultado:


Este poema chama-se "Sólo para verte" e é de autoria da poeta argentina Nela Rio. A Andréia fez a dissertação de mestrado dela sobre a obra da autora. Quem quiser ver outros vídeos em homenagem à poeta ou mesmo participar da iniciativa basta acessar o blog Quando Nela Rio, também da Andréia.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

o contador de calculadoras

Era uma vez um cara cuja função era contar calculadoras. Calculava brevemente quantas deviam ali estar. Se ele usasse uma das quais tinha que contar para fazer a conta acabava perdendo-se nas contas. Conta-se que o tal contador se contentava com quantas pudesse contar. Às vezes contava muitas, outras vezes cantava um pouco quando outras quantas encontrava. Caso estranho este que conto, contar calculadoras pode gerar um loop de danos incontáveis. Isso calculo eu. Ficar à cata, de algo que conta, contando aos poucos pelos cantos. Que encanto há nisso? Mas era preciso que alguém contasse as calculadoras na conta exata para que estas exatamente calculassem os cálculos que não se faz em conta-de-cabeça. É cada coisa que acontece que nem nos damos conta...

PS: Texto em homenagem ao Rody Cáceres.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

mitômano

Eu vou revelar um segredo. Eu matei um homem. Foi legítima defesa, juro. Era um estuprador. Estava prestes a fazer aquilo que lhe dava prazer. Foi meio instintivo. Bati nele com uma pedra, pelas costas. Foi meio covarde, confesso. E só depois que o fiz, percebi que não havia mulher alguma. Ele estava violentando uma cachorra. Tenho certeza. Apesar de a cachorra estar apenas comendo ração, tranquilamente. Posso ter me enganado, é possível, mas já estava feito. Foi o avião que me distraiu. Um que aterrisou no meio da rua, em pleno sol das três da tarde. Engraçado como ninguém se assustou. Nem perceberam os gritos desesperados da mulher, digo, da cachorra. Mas eu sou inocente, viu? Até a Polícia disse isso. Principalmente porque não havia cadáver. Fazer o que se havia uma harpia de três metros no beco em que matei o homem? A harpia comeu ele inteiro, nem pausa pra respirar deu. Antes de sair voando me pediu segredo. E eu sou louco de contrariar uma harpia de três metros? Só estou contando isso pois algo pode acabar dando mal para mim. Ainda mais depois que testemunhei um rato matando um gato. Sardinha envenenada. O gato foi muito pato de cair na conversa mole do rato. O rato disse que tinha consciência social e o gato, por sua vez, poupou a vida do rato por pieguice. Bem feito. Bom, está ficando tarde e preciso ir ver as estrelas. É que um ET amigo meu me prometeu que vai piscar duas vezes as luzes verdes da nave dele quando passar por aqui de novo...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

pieguice perdida

Sentei à mesa daquele boteco velho. Não era fedido. Serviam A la Minuta. Há dias que não almoço. Ando comendo toda sorte de porcaria. Economia de tempo e de dinheiro. Era pra ser um dia bom, mas a chuva lá fora impedia minha alegria completa. Há dias não acho um sorriso no meu rosto. Não ando tendo motivos pra tanto. Sentei e esperei. A moça disse que já chegava. Comida de verdade. Espera de verdade. Foi aí que a epifania se desnudou. Um homem, de aparência humilde, escassos dentes na boca nua, olhos enviesados, adentrou o pesado ar do recinto. "Uma taça de café com leite e um pão com manteiga", pediu ele, sucinto. Não sei se foi a simplicidade do pedido ou a tortuosa figura que o fazia, mas essa cena me deu um nó na garganta. Lembrei da última crônica do Sabino. Lembrei da minha infância bucólica. Lembrei que há tempos esqueci o que é chorar. Até ando tendo motivos para tanto. Estranhamente, meus olhos marejaram. Me segurei para não derramar ali minha pieguice reencontrada. Olhei para o lado, havia uma TV que transmitia uma novela requentada. Mas a figura em minha frente era, de fato, cativante. Seu sorriso despreocupado e seus olhos brilhantes perante a TV contrastavam com a pobreza do prato à sua frente. Tentei lembrar quando foi a última vez que me comovi. Não consegui. O A la minuta chegou. Comi aos poucos, para lembrar como era um almoço, para esquecer meus sentimentos escusos. Só me atrevi a olhar novamente quando o sujeito se levantou. Do bolso dele saíram gordas notas de cinquenta para quitar a parca dívida. E eu, definitivamente comovido, lembrei que teria que contar minhas moedas para pagar o único almoço que tive em dias.