O blog está quase completando um ano (apesar de as postagens estarem raras). Estive refletindo e acho que está chegando a hora de dar um passo à frente, criar asas.
Em breve teremos (grandes) novidades.
Aguardem..
PS: Gostaria de agradecer a todos que acessaram, postaram comentários, deram estrelinhas e a todos que, de algum modo, fizeram com que este blog fosse motivo de orgulho pra mim. Muito Obrigado.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
sábado, 31 de outubro de 2009
tudo o que o amanhã me trouxe
Tudo o que o amanhã me trouxe foi um sonho desperdiçado, daqueles em que se acorda no momento em que se tem certeza que seria grande coisa, porém, no entanto, não se tem lembrança exata do que se perdeu. Tudo o que o amanhã me trouxe foi o salivar desesperado a que se é submetido no momento em que se descobre que o sorvete de morango, não se sabe por que motivo, acabou. Tudo o que o amanhã me trouxe foi a surpresa desagradável que se tem quando se descobre que o livro que se tanto queria, cujos níqueis suados que o pagariam estão no seu bolso surrado, está esgotado. Tudo que o amanhã me trouxe foi a recusa impensável daquele amor que se desprezava e que, de um momento pra outro, passou a ser indispensável, mas que, sabe-se lá por que, não mais o quis. Tudo que o amanhã me trouxe foi a queda de energia no exato momento em que se terminava um texto e que ingenuamente não havia sido salvo anteriormente e, justamente por isso, ficou pra sempre perdido. Tudo o que o amanhã me trouxe são lembranças pérfidas que teimo em trazer à tona pra não esquecer dos erros que ainda vou cometer.
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domingo, 4 de outubro de 2009
havia dias em que acordava com a camisa da seleção
Havia dias em que acordava com a camisa da seleção. Era a senha. A mãe e o filho precisavam correr para arrumar tudo, enquanto o avô tomava seu solitário café da manhã. Era preciso arrumar a sala, tirar os porta-retratos recentes, resgatar do sótão o velho vídeo-cassete (que ficava aparentemente desligado) e retirar da redoma meticulosamente escondida a famigerada fita VHS.
O avô não estava bem da cabeça. Passava dias, até meses sem dizer palavra. Quando resolvia abrir a boca era em uma ocasião temida pela sua filha e seu neto. Era quando acordava com a camisa da seleção.
A mãe e o filho já sabiam as consequências do não-cumprimento do sagrado ritual de adaptação. E não queriam que se repetissem. Era por isso que, toda vez que o avô acordava com a camisa da seleção, eles sacrificavam seu dia em prol do resto de sanidade que havia no avô. Esses dias eram, via de regra, dias tristes.
A cisma do avô estava em 1986. Para quem não sabe, este ano era ano de Copa do Mundo. E o avô não só era um ufanista incorrígivel como também um aficionado pelo futebol do meia Zico. Zico quase não jogara aquele campeonato pois estava machucado. Ainda assim, nas quartas-de-final, o meia entrou em campo e prontificou-se a bater um pênalti. O avô, extasiado, repetia mantricamente que o Zico nunca errava um pênalti. Pois o Zico errou. E daquele dia em diante, a cabeça do avô entrou em parafuso.
Nunca se recuperara. Os filhos buscaram ajuda, tentaram de tudo. No avô apenas o olhar parado, incrédulo, da hora do pênalti ficara petrificado.
E assim passaram os anos. Uns filhos desistiram, outros esqueceram do velho. Apenas sua filha mais dileta encarregou-se de seus cuidados. E, claro, dos dias em que acordava com a camisa da seleção.
Tentaram acordá-lo a todo custo. Era inútil. O avô estava imerso em mundo do qual não tinha controle.
A mãe, com a ajuda do filho, conseguiu uma fita com o jogo na íntegra. Era um ritual fácil, apesar de doloroso. O avô tomava o café solitário e ficava mudo até a tarde, quando, animadíssimo, cutucava o neto, instigando-o a ver o jogo. O neto ligava a TV - a fita já estava preparada - e acompanhava o avô na torcida até o momento do pênalti, do olhar petrificado e dos dias de mudez.
O filho - que também era o neto - às vezes revoltava-se contra seu destino atroz. Porém, as súplicas da mãe sempre o faziam resignar-se e aceitar o injusto carma. E assim era sua rotina até o dia em que o avô, mais uma vez, acordou com a camisa da seleção.
A correria já não era a mesma. Tinham treino e executavam as ações com a precisão de uma equipe de nado sincronizado. Almoçaram tristemente acompanhados da mudez do avô. O neto - que também era o filho - fingiu a mesma cara de surpresa quando o avô o avisou do jogo. A mãe e o filho/neto já nem assistiam direito à partida. Haviam decorado cada drible, cada passe errado, cada carrinho e chute desperdiçado. Apenas esperavam a hora do pênalti maldito.
E assim foi. Enfastiados e falsamente entusiasmados, a mãe e o filho viram Zico, pela enésima vez, preparar a cobrança. O meio campo deu sua tradicional meia corrida e com o pé direito fustigou fortemente a pelota que estufou os cordões da rede e descansou serena no fundo do gol.
O terror instalou-se. A mãe e o filho entreolharam-se, numa mudez gritante. O avô repetia em regozijo que o Zico nunca errava. A mãe e o filho voltaram-se para a TV, incrédulos. O replay não desmentia a alegria do avô. Os olhos da mãe e do filho ficaram parados, petrificados.
E desde então, toda vez que acordam com a camisa da seleção o avô precisa cumprir um dificultoso ritual em prol do que resta de sanidade na filha e no neto.
O avô não estava bem da cabeça. Passava dias, até meses sem dizer palavra. Quando resolvia abrir a boca era em uma ocasião temida pela sua filha e seu neto. Era quando acordava com a camisa da seleção.
A mãe e o filho já sabiam as consequências do não-cumprimento do sagrado ritual de adaptação. E não queriam que se repetissem. Era por isso que, toda vez que o avô acordava com a camisa da seleção, eles sacrificavam seu dia em prol do resto de sanidade que havia no avô. Esses dias eram, via de regra, dias tristes.
A cisma do avô estava em 1986. Para quem não sabe, este ano era ano de Copa do Mundo. E o avô não só era um ufanista incorrígivel como também um aficionado pelo futebol do meia Zico. Zico quase não jogara aquele campeonato pois estava machucado. Ainda assim, nas quartas-de-final, o meia entrou em campo e prontificou-se a bater um pênalti. O avô, extasiado, repetia mantricamente que o Zico nunca errava um pênalti. Pois o Zico errou. E daquele dia em diante, a cabeça do avô entrou em parafuso.
Nunca se recuperara. Os filhos buscaram ajuda, tentaram de tudo. No avô apenas o olhar parado, incrédulo, da hora do pênalti ficara petrificado.
E assim passaram os anos. Uns filhos desistiram, outros esqueceram do velho. Apenas sua filha mais dileta encarregou-se de seus cuidados. E, claro, dos dias em que acordava com a camisa da seleção.
Tentaram acordá-lo a todo custo. Era inútil. O avô estava imerso em mundo do qual não tinha controle.
A mãe, com a ajuda do filho, conseguiu uma fita com o jogo na íntegra. Era um ritual fácil, apesar de doloroso. O avô tomava o café solitário e ficava mudo até a tarde, quando, animadíssimo, cutucava o neto, instigando-o a ver o jogo. O neto ligava a TV - a fita já estava preparada - e acompanhava o avô na torcida até o momento do pênalti, do olhar petrificado e dos dias de mudez.
O filho - que também era o neto - às vezes revoltava-se contra seu destino atroz. Porém, as súplicas da mãe sempre o faziam resignar-se e aceitar o injusto carma. E assim era sua rotina até o dia em que o avô, mais uma vez, acordou com a camisa da seleção.
A correria já não era a mesma. Tinham treino e executavam as ações com a precisão de uma equipe de nado sincronizado. Almoçaram tristemente acompanhados da mudez do avô. O neto - que também era o filho - fingiu a mesma cara de surpresa quando o avô o avisou do jogo. A mãe e o filho/neto já nem assistiam direito à partida. Haviam decorado cada drible, cada passe errado, cada carrinho e chute desperdiçado. Apenas esperavam a hora do pênalti maldito.
E assim foi. Enfastiados e falsamente entusiasmados, a mãe e o filho viram Zico, pela enésima vez, preparar a cobrança. O meio campo deu sua tradicional meia corrida e com o pé direito fustigou fortemente a pelota que estufou os cordões da rede e descansou serena no fundo do gol.
O terror instalou-se. A mãe e o filho entreolharam-se, numa mudez gritante. O avô repetia em regozijo que o Zico nunca errava. A mãe e o filho voltaram-se para a TV, incrédulos. O replay não desmentia a alegria do avô. Os olhos da mãe e do filho ficaram parados, petrificados.
E desde então, toda vez que acordam com a camisa da seleção o avô precisa cumprir um dificultoso ritual em prol do que resta de sanidade na filha e no neto.
domingo, 27 de setembro de 2009
websarau
Participei, com muito gosto, do websarau promovido pela Andréia Pires (agora de "casa" nova). Taí o resultado:
Este poema chama-se "Sólo para verte" e é de autoria da poeta argentina Nela Rio. A Andréia fez a dissertação de mestrado dela sobre a obra da autora. Quem quiser ver outros vídeos em homenagem à poeta ou mesmo participar da iniciativa basta acessar o blog Quando Nela Rio, também da Andréia.
Este poema chama-se "Sólo para verte" e é de autoria da poeta argentina Nela Rio. A Andréia fez a dissertação de mestrado dela sobre a obra da autora. Quem quiser ver outros vídeos em homenagem à poeta ou mesmo participar da iniciativa basta acessar o blog Quando Nela Rio, também da Andréia.
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audiovisual
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
o contador de calculadoras
Era uma vez um cara cuja função era contar calculadoras. Calculava brevemente quantas deviam ali estar. Se ele usasse uma das quais tinha que contar para fazer a conta acabava perdendo-se nas contas. Conta-se que o tal contador se contentava com quantas pudesse contar. Às vezes contava muitas, outras vezes cantava um pouco quando outras quantas encontrava. Caso estranho este que conto, contar calculadoras pode gerar um loop de danos incontáveis. Isso calculo eu. Ficar à cata, de algo que conta, contando aos poucos pelos cantos. Que encanto há nisso? Mas era preciso que alguém contasse as calculadoras na conta exata para que estas exatamente calculassem os cálculos que não se faz em conta-de-cabeça. É cada coisa que acontece que nem nos damos conta...
PS: Texto em homenagem ao Rody Cáceres.
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delírios
terça-feira, 8 de setembro de 2009
mitômano
Eu vou revelar um segredo. Eu matei um homem. Foi legítima defesa, juro. Era um estuprador. Estava prestes a fazer aquilo que lhe dava prazer. Foi meio instintivo. Bati nele com uma pedra, pelas costas. Foi meio covarde, confesso. E só depois que o fiz, percebi que não havia mulher alguma. Ele estava violentando uma cachorra. Tenho certeza. Apesar de a cachorra estar apenas comendo ração, tranquilamente. Posso ter me enganado, é possível, mas já estava feito. Foi o avião que me distraiu. Um que aterrisou no meio da rua, em pleno sol das três da tarde. Engraçado como ninguém se assustou. Nem perceberam os gritos desesperados da mulher, digo, da cachorra. Mas eu sou inocente, viu? Até a Polícia disse isso. Principalmente porque não havia cadáver. Fazer o que se havia uma harpia de três metros no beco em que matei o homem? A harpia comeu ele inteiro, nem pausa pra respirar deu. Antes de sair voando me pediu segredo. E eu sou louco de contrariar uma harpia de três metros? Só estou contando isso pois algo pode acabar dando mal para mim. Ainda mais depois que testemunhei um rato matando um gato. Sardinha envenenada. O gato foi muito pato de cair na conversa mole do rato. O rato disse que tinha consciência social e o gato, por sua vez, poupou a vida do rato por pieguice. Bem feito. Bom, está ficando tarde e preciso ir ver as estrelas. É que um ET amigo meu me prometeu que vai piscar duas vezes as luzes verdes da nave dele quando passar por aqui de novo...
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009
pieguice perdida
Sentei à mesa daquele boteco velho. Não era fedido. Serviam A la Minuta. Há dias que não almoço. Ando comendo toda sorte de porcaria. Economia de tempo e de dinheiro. Era pra ser um dia bom, mas a chuva lá fora impedia minha alegria completa. Há dias não acho um sorriso no meu rosto. Não ando tendo motivos pra tanto. Sentei e esperei. A moça disse que já chegava. Comida de verdade. Espera de verdade. Foi aí que a epifania se desnudou. Um homem, de aparência humilde, escassos dentes na boca nua, olhos enviesados, adentrou o pesado ar do recinto. "Uma taça de café com leite e um pão com manteiga", pediu ele, sucinto. Não sei se foi a simplicidade do pedido ou a tortuosa figura que o fazia, mas essa cena me deu um nó na garganta. Lembrei da última crônica do Sabino. Lembrei da minha infância bucólica. Lembrei que há tempos esqueci o que é chorar. Até ando tendo motivos para tanto. Estranhamente, meus olhos marejaram. Me segurei para não derramar ali minha pieguice reencontrada. Olhei para o lado, havia uma TV que transmitia uma novela requentada. Mas a figura em minha frente era, de fato, cativante. Seu sorriso despreocupado e seus olhos brilhantes perante a TV contrastavam com a pobreza do prato à sua frente. Tentei lembrar quando foi a última vez que me comovi. Não consegui. O A la minuta chegou. Comi aos poucos, para lembrar como era um almoço, para esquecer meus sentimentos escusos. Só me atrevi a olhar novamente quando o sujeito se levantou. Do bolso dele saíram gordas notas de cinquenta para quitar a parca dívida. E eu, definitivamente comovido, lembrei que teria que contar minhas moedas para pagar o único almoço que tive em dias.
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domingo, 30 de agosto de 2009
desmantelando-se
Eu não tenho um braço. Sim, é verdade. Eu não tenho um braço. Perdi esses dias. Tava distraído pensando no futuro, traçando planos. Daí lembrei que no outro dia tinha que acordar cedo, pois meu trabalho exige e meu braço caiu. Assim, do nada. Tentei catar de volta, mas ele se desintegrou quando caiu no chão. Não que eu precise muito dele, mas era de estimação, sabe? O mesmo aconteceu com minha perna esquerda. Foi no dia que eu percebi que tinha três carnês que só vencerão no ano que vem. Um deles em dezembro. E ando assim, perdendo partes aos poucos. Uma orelha, por exemplo, se foi quando tive que largar a faculdade. Mas eu não estou preocupado. Tem gente trabalhando duro para que membros e órgãos biônicos possam existir. Gente como eu, que trabalha duro e não se importa com o amanhã. Para que se preocupar? Basta fazermos bem nosso rotineiro trabalho e estaremos contribuindo para o equílibrio de nossa magnífica sociedade. E enquanto digo isso meu dedo mindinho da mão acabou de se desprender de meu corpo...
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divagações
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
eu e as estrelas...
Bueno, gurizada, vendo o blog do Leonardo, acabei gostando da história das "estrelinhas" que tem por lá. As "estrelas" nada mais são do que um sistema de avaliação do conteúdo dos blogs. Eu sei que tem gente que frequenta aqui e que não gosta de - ou não quer - comentar. Portanto, peço que clique nas "estrelinhas" e exerça a democracia do seu gosto. A partir dessas "estrelinhas" posso ter uma ideia melhor do que anda agradando ou não por aqui. Era isso. Seja feita a sua vontade.
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vida irreal
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
um pouco de destempero no reino dos desesperançados
Nem tudo é tristeza no reino dos desesperançados. Há, às vezes, um vislumbre desajeitado de um horizonte favorável num futuro próximo. Mas poucos atrevem-se a olhá-lo. Um futuro incerto ou um presente confuso? No alto de sua profunda incompreensão, um moribundo resolveu falar. Sabia, por certo, que não o queriam ouvir. No reino dos desesperançados, qualquer ponta de esperança causa pânico. E a coragem é um artigo cuja encomenda dificilmente chega. Mas o moribundo, não se sabe se era um mendigo ou uma autoridade, estava inquieto. No reino dos desesperançados, ninguém espera nada de ninguém. Nem um gesto acolhedor, ou um sorriso furtivo. O mendigo, digo, o moribundo atreveu-se. Começou gesticulando bravamente, como quem encoraja um lutador. Disse, para quem quisesse ouvir, que tomos somos capazes, basta que acreditemos em nós mesmos, em nossas capacidades, em nosso poder pessoal. Que a esperança só morre quando a matamos. Assim sendo, propôs o moribundo, deveremos, a partir de hoje, olharmos com mais confiança nosso futuro, pois tudo o que precisamos está em nós mesmos. Mas estamos no reino dos desesperançados. E todos olharam desconfiados para aquele ser minúsculo. Ninguém lhe deu crédito. Tampouco confiança. Seguiram acreditando que o amanhã só é uma continuação enfadonha de hoje. E o Moribundo voltou-se absorto para a tristeza que poluía o lugar. E todos iam passando. Incrédulos. Insatisfeitos. Nos olhos vazios de cada um a frustração desesperançada de um porvir sem esperanças...
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